sexta-feira, 28 de março de 2014

MOMENTO REESTRUTURANTE

Um estudo simples sobre as transformações da economia local 

Ate outubro 12, nossa empresa de treinamentos, vendia  cerca de 53 cursos aos mês. Desde 2010, mantínhamos esta media de vendas, fora os treinamentos de RAC, que chegavam a casa dos  200. A partir de novembro daquele ano, iniciou-se uma espiral invertida e a cada mês, foram reduzindo as vendas, até estagnar em maio de 2013, nos 12 cursos mês, sem qualquer tomada de preços, para treinamento RAC. Nossa receita desabou mais de 70%. Outras atividades essenciais passaram a despontar e cobrir o rombo, tais como serviço de despachante, acerto de firmas, serviços de mediação e arbitragem. Atividades típicas de momento de crise econômica. Estamos falando com a autoridade de quem esta sentindo na pele a  retração econômica de Parauapebas. Senão vejamos:
Nossos clientes, em diversos ramos de atividade passaram a atrasar pagamentos, a reclamar da baixa arrecadação de vendas de produtos e serviços. Rede hoteleira, com redução de 40 a 60%, lojas de autopeças, redução de 70%, serviços em geral, venda de alimentos, farmácias, tudo e todos reclamando e percebendo a falta de clientes dispostos a pagar qualquer preço. Até os mototaxistas estão desnorteados, com tão pouca gente disposta a pagar seus preços exorbitantes por corrida. Muitas escolas fecharam as portas, muitas atividades que até então não tinham problemas em vender, estão reduzindo suas margens, perdendo suas perspectivas.
Mas a produção da VALE e os repasses para a prefeitura, são crescentes e representam os maiores pagamentos da historia da cidade. Até agosto 2013, foram repassados R$905.552.577,79, nunca ficando ao mês, valores inferiores a R$80.000.000,00 de reais. Os maiores picos de faturamento  foram nos meses de fevereiro – 191.032.290,43 e março – 174.762.644,67.
O ISS, que mede diretamente o faturamento de toda a atividade de serviços, não pára de crescer, em relação a 2012 e em relação a períodos mensais de 2013. Vejam no quadro 1.  Mês a mês, chega a picos de quase 20% maior que o ano anterior.
quadro1 - (clique na imagem para ampliar)
Somente apartir de junho 2013, temos uma queda desta importante receita, veremos que é a partir deste momento, que se começa  a refletir o aperto do comercio e serviços não vinculados a VALE. Há uma forte tendência a faturar mais de 20% em 2013, do que todo o faturamento de  2012. Portanto a receita esta crescendo, ou se mantendo como 2012, um ano bom para Parauapebas.
Quando analisamos os repasses diretos do CEFEM, temos um faturamento global em 2012, na ordem de R$283.132.363,04. Em 2013, apenas de janeiro a setembro, já temos um faturamento de R$380.509.109,67, quase 50% maior que o ano anterior. Isto em repasse direto vale, o que nos diz que a produção da mineradora continua crescendo ou no mínimo estável em relação a 2012. Os dados financeiros não apontam diretamente para a crise que estamos vivendo. Pelo menos no corrente ano. Mas ai que esta o problema. Foram tomadas decisões lá atrás que refletem nossa situação atual. Decisões que estão afetando para sempre a historia de Parauapebas. Situações que fizeram todas as consultorias externas falharem em seus diagnósticos: Delloite, Diagonal, Revista Exame e principalmente os grandes investidores, que não pesquisaram localmente, que ignoraram nossos dados e analises, largamente publicados. Dados locais, regionais, nacionais e internacionais, produzidos pela EXCLUSIVA CONSULTORIA.
Os problemas, previsíveis, dada a não sustentabilidade da exploração mineral, da colheita única o produto minério, ainda mais, com o teor único e qualidade impar do minério de Carajás, era impossível manter este crescimento por muito tempo mais. Esta desaceleração, oriunda sim da propaganda irresponsável em torno de um crescimento sem fim, esta massacrando hoje todos que acreditaram sem conhecer – como estamos vendo o império do Eike Batista soçobrar... não é e é culpa da VALE. Mas sobretudo é culpa das elites e sociedade de Parauapebas. Da para entender? Se não, vamos aos fatos, a matemática:
Quando iniciou a pesquisa e a produção local, o governo brasileiro sabia que teria fim o ciclo de exploração. Se Brasília tivesse compromisso com o Estado do Pará, teria estudado e implantado a verticalização da cadeira do ferro, lá atrás. Haveria justificativa econômica, há 30, 20 anos atrás. A jazida esta intocada, poderia ter se orientado para a riqueza ficar aqui. Mas naquele momento a estratégia era abafar a Guerrilha do Araguaia, era a época do acordo MEC X USAID, estávamos falando de guerra civil. Teríamos que entregar a pesquisa e os mercados para o gigante do norte, e assim foi feito. Hoje entregamos para a China e não faz diferença. É parte da estratégia geopolítica do Condor, a China ser o gigante que é, e nos brasileiros continuarmos sem tecnologia, sem possibilidade de confronto. Nosso papel. Fornecer commodities, alimentos, minerais, um setor primário global, e nisso estamos indo bem.

A irresponsabilidade é tanta, que ao estudarmos a implantação do shopping Unique, deparamos com uma analise que teríamos agora, em 2013, 500 mil habitantes em Parauapebas. A consultoria esqueceu convenientemente da Copa do Mundo, da construção de Belo Monte, da exploração do petróleo e gás na Paraíba e Maranhão, nas olimpíadas de 2016. E no próprio desenvolvimento agrícola do sul do Maranhão. Tudo, atividades e desenvolvimento que naturalmente roubariam a mão de obra desqualificada e barata do interior do Maranhão e seus fluxos em direção a região do Carajás. Um simples erro de estudiosos e de consultores pagos a  peso de ouro.  
Então, um padrão necessário a manutenção de preços baixos para sustentar um minério de qualidade competitivo e a altíssima produtividade da VALE, começou a sofrer com a escassez crescente do vetor mão de obra barata. A política dos sindicatos silenciosos, da baixa remuneração, passou a ser seriamente ameaçada com os primeiros refluxos de trabalhadores na região. Rapidamente a VALE promoveu uma intensa primarização, dispensando as terceiras e seu exercito de aflitos. Com a mina de ferro de Carajás totalmente implantada e no seu grau máximo de produtividade – como vemos nos exercícios 2012 e 2013 – tabela 1, com produção e repasses crescentes de tributos para a cidade, fomos perdendo quase sem perceber, a massa bruta e errante de trabalhadores, que começaram a ser atraídos por melhores salários em outras regiões, pela anulação total das empreiteiras e pelas novas políticas de contratação da VALE. Este cenário, construído ao longo dos últimos 4 anos, passaram desapercebidos pelos intelectuais, políticos e sindicatos locais, e pelas consultorias externas. Todos focados na sua crença de exploração mineral sustentável.
Com os aumentos de custos recorrentes da mina de ferro de Carajás, devido em parte por problemas geológicos – profundidade da cava – estima-se que esteja a 300 metros abaixo do nível do mar, sendo necessário o esgotamento por bombas de 150 mil litros hora de água, para manter a mina enxuta, seja pelo desgaste da imagem da VALE, pelos recorrentes acidentes, quebras de empresas e políticas de relacionamento desastrosas com a comunidade, a mina do SD11 surge como panacéia e solução para a contenção de custos e aumento da atratividade da produção bruta e exportação de minérios in natura para o exterior. Liderados pelo ferro, não se aproveita seus agregados naturais e de alto valor, só para citar, urânio, ouro, platina e outros raros. A viabilização da exploração do SD11 é a solução econômica mais lógica e seus estudos foram feitos para coincidir com ao aumento de custos de Carajás. 

Como predadora, não se poderia esperar da VALE outra atitude. Mas dos políticos locais sim, esperamos e sugerimos varias atitudes – fundo soberano, gestão partilhada, redução e controle da exploração e das exportações e outros modos de compartilhar a riqueza retirada de uma única vez e para sempre do subsolo local. Agora, em vias de perdermos grande parte das  conquistas em  23 anos de historia, Parauapebas enfrenta pela primeira vez, seu MOMENTO REESTRUTURANTE. Nunca mais seremos os mesmos. Estamos diante do momento histórico das bolhas se partirem: os preços exorbitantes de alugueis, serviços, comida – tudo estará desaparecendo agora e nos próximos anos. Quem se adaptar, viverá. Quem não se adaptar, vai desaparecer. A propaganda do crescimento infinito comprado por todos os agentes de investimento – de forma irresponsável, pois todos sabiam de uma forma ou de outra que o minério não seria para sempre e que, mesmo em 400 anos (parece piada, mas o The Wall Street Journal estava atrás dessa brincadeira da VALE com seus investidores e políticos locais), teria um fim a sandice da exploração a qualquer custo e rapidamente. Estamos chegando neste momento.

A propaganda de que o crescimento de dois dígitos, baseado no minério de ferro, sustentaria lojas, faculdades, fabricas, shoppings e outros, se revela agora um fracasso. Eram 22 lojas de material de construção, agora são 167 (dados da CDL, presidente). Eram 8 hotéis, agora são 52. Tínhamos ate 2011, 35 restaurantes, agora são mais de 200 e assim vemos em todas as atividades, um expressivo  aumento de empresas, ate o fim de 2012 para a mesma população. Uma população relativamente endividada com a bolha imobiliária que ainda  e em breve vai estourar: as famílias estão endividadas pagando o financiamento da casa própria, dos materiais de construção e da mão de obra construtora. Uma expansão absurda, como a ocorrida de 2010 para cá, é insustentável, do ponto de vista econômico, social, ambiental e humano. A cidade cresceu 5 vezes. O poder público, em qualquer esfera esta ausente. Não há segurança, hospitais, escolas, serviços públicos, por toda a nova Parauapebas.  A demanda da população não poderá e não será atendida, nem em 30 anos. Não se deveria permitir esta expansão, porque ela não é crescimento, é inchaço.
Quando as famílias, com menos renda, precisarem sair atrás de serviço, estas casas e lotes serão abandonadas ou recompradas pelas incorporadoras. Será um quadro desolador: terrenos que não valem o custo de implantação e famílias no prejuízo. Com a desaceleração da expansão econômica e social, a cidade vai encolher a seu  tamanho real, com bairros inteiros abandonados.  Parauapebas então, terá que buscar uma nova atividade – agropecuária?  Serviços? Temos a vocação de ser dormitório, talvez nos especializemos nisto. Vamos assistir, apartir de 2015, uma redução drástica na atividade econômica. Quem se sustentou até aqui, terá que reduzir custos e preços, a receita corrente da prefeitura vai reduzir, haja visto a redução constante das atividades da VALE na cidade. Assistiremos um crescimento caótico e desordenado no em torno – principalmente Canaã. Muitos vão ou já estão se transferindo para lá, para dentro de 20 anos, saírem novamente. É a mineração...

Então, já alertados para o cenário real que esta se colocando, 2013 foi apenas o teste da VALE, de promover a transição suavemente, recomendamos a analise de orçamento da prefeitura para assumir o papel de liderança econômica podendo reduzir o impacto das quebras e da crise econômica, liderada pela crise imobiliária. Um orçamento de investimentos como o previsto, cerca de 800 milhões de reais, é suficiente para elevar a economia de Parauapebas para estável nos próximos 5 anos. Poderemos fazer um pouso suave neste período, mas vamos precisar de preparo para não virar uma cidade fantasma. Sugerimos a criação de um grupo técnico, para estudos com dados reais e verdade, propondo políticas sociais e de investimento para a cidade. Como já citado, precisamos votar e estabelecer em parceria com a VALE e de forma inédita no pais, um FUNDO DE POUPANÇA, talvez retendo parte dos repasses, talvez negociando uma compensação, pela redução das atividade e possível fechamento da mina  ou mudança de status de produtiva para manutenção. Não sei, algo precisa ser feito, e urgente. As incorporadoras devem apresentar uma política social para resolver o impasse da devolução ou abandono dos lotes, compartilhada com os órgãos políticos – câmara e prefeitura. A expansão imobiliária deve cessar imediatamente, ou se tornar mais lenta, dentro de rígidos critérios públicos e promessa social. 
É urgente encontrar  alternativas para a produção, para a geração de emprego e renda. A questão da energia – problema em todo o pais, haja visto que a rede Celpa não vai dar conta – precisa ser compartilhada com a prefeitura e a VALE – energia renovável.  Alternativas na área da saúde, precisam ser planejadas e implementadas, este cenário atual, incluído o novo hospital, apenas trará mais problemas. Grupos temáticos devem ser criados com os vereadores e a sociedade civil. Quanto ao transporte, precisa ser licitado nacionalmente e estabelecido os estudos origem e destino para definir rotas e linhas. O taxi lotação deve ser regulamentado, aliviando  pressões sociais e de mobilidade ao executivo. O planejamento, projeto e execução do sistema de esgoto, em parceria com as incorporadoras e a construção da orla devem ser acelerados, urgentemente.  Precisamos definir, com os pés no chão, que cidade menor queremos. Este MOMENTO REESTRUTURANTE é UMA CRISE, portanto, UMA OPORTUNIDADE DE CONSERTARMOS  O ERRO HISTÓRICO QUE sempre foi a mina de ferro de Carajás, suas sistemática de produção e a existência largada de PARAUAPEBAS. Este ano que se inicia, com seus poderosos entraves de Copa do Mundo, eleições  gerais, sistematização da redução da produção local, será o maior desafio já enfrentado por esta cidade. 

Vamos sair vivos e melhores, mas com menos, muito menos gordura. Seremos melhores, se soubermos evitar as armadilhas do convencimento, da crença de que o minério terá segunda safra. Este ano, o setor rural publico fez um trabalho fenomenal de estudar o campo. Hoje, mais do que nunca, temos condições de estabelecer uma cultura de produção de proteína animal, alimentos e combustível, exemplares para o Brasil. A tecnologia desenvolvida pela Sempror deve ser levada a Belém. Representantes dos produtores rurais devem ocupar seus postos e participarem com mais personalidade dos destinos de Parauapebas. Chegou a hora dos políticos de carteirinha cederem espaço para quem realmente sustenta tudo nesta cidade. Com o refluxo populacional, veremos uma sociedade mais comprometida e com investimentos lutando pela sua manutenção. Vamos trabalhar para reduzir cada vez mais, a participação da VALE nos destinos de Parauapebas.
Assumir que temos, pela primeira vez em 20 anos, um governo que entende de contabilidade, de produção, de planejamento e execução orçamentária, é um alento e no momento certo. Temos a oportunidade impar, de construir aqui o território federal de Carajás, de transformar esta região, num celeiro de commodities valorizadas e plantar uma base industrial forte e concorrente. Precisamos ordenar os grupos de pesquisa e estudos, os grupos de planejamento e desenvolvimento, precisamos  dos lideres certos para tomada de decisão quanto ao nosso futuro.

A massa salarial dos milhares de trabalhadores que sumiram das ruas e praças de Parauapebas faz falta e de alguma forma, precisamos transferir estes recursos com o aumento de postos de trabalho e o necessário aumento de produtividade. É este dinheiro que antes supria o comercio e serviços locais. Gerado na base da pirâmide social, estes recursos supriam toda a cidade, mantinha seus preços altos, sua inflação galopante e a intensidade das trocas. Andando por toda a cidade, os diversos centros locais – VS10 – Altamira – Guanabara – Cidade Nova – Liberdade – Palmares Sul, Palmares II – Rio Verde Buriti – Shopping e dezenas de outros e novos, continuam com seu comercio local, menor e mais de região, eletrizante. A cidade como um todo ressente, mas o pequenos vão se adaptar, os médios e grandes, sensíveis vão se reestruturar e manter seu negocio. Os afoitos, sem custos, atrasados, vão sucumbir. Mas Parauapebas é eterna e vamos superar todas as dificuldades que, ter uma economia baseada na mineração, traz para uma sociedade. Estamos diversificando há pouco tempo, logo teremos os resultados, forçados pelo momento histórico.